Lutadora faz história no kung fu  
  Correio Popular - Esportes/ SP - Lutas - 27/11/2007  
 

Adriana Giachini
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA


Ariana Ortega, de Campinas, participará do torneio paralelo a ser organizado por Pequim durante os Jogos de 2008

O olhar de Ariana Ortega revela felicidade. Mulher de gestos delicados, expressões suaves e determinação de gigante. Prestes a completar cinco anos de casada dia 30 - com o técnico Henrique Ortega -, comemora também a 5 colocação (categoria 52kg) no Mundial de Kung Fu Wushu, realizado em Pequim, na China, entre os dias 11 e 17 deste mês.

O surpreendente resultado - visto que se trata da mais respeitada competição do gênero -, lhe garantiu a única vaga feminina do Brasil na Olimpíada de Pequim. Além dela, o atleta de Cordeirópolis Emerson Almeida, também no sanshou (combate), garantiu presença na competição de 2008. Ele terminou em 3 na categoria 85kg. "Ainda não consigo explicar o que isso significa para meu esporte e para a minha carreira", diz Ariana, que compete pela academia de Campinas.

Como a Olimpíada será realizada na China, o berço da modalidade, o kung fu entrará na programação pela primeira vez e como extra, em um torneio paralelo aos Jogos. "Mas a gente se considera atleta olímpico. Não vai contar pontos, mas será realizado no mesmo período e no mesmo lugar", defende a lutadora.

Ariana é a típica mulher moderna. Bonita, determinada e apaixonada: pelo que faz e pelo maridão. Os dois se conheceram na academia e tratam do esporte com a maior cumplicidade. Ele é o técnico. Ela a atleta. A relação exige respeito em tempo integral, mas eles oferecem mais. Em casa, não raramente, quebram a regra de separar as duas rotinas e, quando menos esperam, lá estão os dois falando de esporte.

Por isso a coisa funciona. Não existem conquistas individuais. É carinho em tempo integral. "Eu não seria o que sou se o Henrique não tivesse entrado na minha vida. Ele entende o esporte e me apóia o tempo todo", reconhece. "Eu costumo dizer que o kung fu ajuda nos casamentos mas, claro, antes de tudo é preciso afinidade entre marido e mulher", diz Ortega.

O "estar juntos" de Ariana e Henrique é mais uma história para comprovar a tese de quem acredita em "almas gêmeas". Ele nasceu no México e mudou-se para o Brasil aos 4 anos. Ela é nascida em Rio Claro, mas morou os primeiros anos de vida na Venezuela. Os dois se conheceram em Campinas. Aos 16 anos, quando entrou para a academia, Ariana só queria turbinar o corpo. Ortega já ostentava um título mundial (no kung fu tradicional). A inusitada parceira deu certo e a comprovação vem de dentro do tatame.

Henrique é o técnico da equipe feminina do Brasil, enquanto Ariana perde as contas do títulos paulistas e brasileiros que tem. Destaca os internacionais. Foi campeã mundial em 2003 (estilo tradicional) e vice-campeã Pan-Americana em 2006 e campeão sul-americana este ano, ambos no estilo wushu sanshou (combate). Isso sem contar a 5 colocação no Mundial da China. Como nas Olimpíadas serão apenas cinco categorias - duas femininas e três masculinas -, a conquista não foi fácil, uma vez que as melhores do mundo pleiteavam uma das oito vagas na 52kg.

A luta que perdeu foi para a chinesa Qin Lin, tricampeã mundial. "Mas estou feliz de estar lá. Agora é treinar para pegar pódio na Olimpíada", frisa a lutadora que, por conta dos resultados no Exterior, acaba de ser contemplada com a bolsa atleta do Governo Federal. "É mais um incentivo."

Prática do esporte muda a vida de aposentada

Quem conhece a aposentada Eurídes Martins Pereira, de 63 anos, entende bem a paixão que o kung fu, uma arte marcial chinesa, desperta nos brasileiros. Benefícios como autoconfiança, concentração e auto-estima estão evidentes na aluna que, no entra e sai das aulas, exibe os cabelos pintados de roxo.

"Antes eram vermelhos e por isso me deram o apelido de Rita Lee. Aliás, estou pensando em escrever para ela e pedir que também pinte os cabelos de violeta, como os meus, para continuarmos parecidas", diz uma bem-humorada senhora. " Se tenho títulos? Claro que tenho. Ganhei uma medalha de ouro em um campeonato porque fui a única da minha idade a competir. Pensa que é fácil lutar sozinha e ganhar?", brinca.

Nascida em 13 de junho, dia de Santo Antônio, e "geminiana nata", Eurídes garante que a filosofia do kung fu, aliada aos exercícios físicos, mudou sua vida. Antes, era enfermeira do banco de sangue da Unicamp. Hoje, dedica-se a divulgar a doutrina espírita de Alan Kardec. "Até meu lado espiritual mudou bastante. O kung fu é bom porque ajuda você a se gostar mais", elogia.

Longe das ambições de competir internacionalmente, Eurídes mantém-se fiel as aulas por que lhe garantem um prêmio raro: o estar de bem com a vida. "Minhas quatro filhas vivem dizendo que sou mais feliz agora e me incentivam a nunca deixar a academia."

Dono e professor na academia, Enrique Ortega usa Eurídes para exemplificar que qualquer pessoa pode praticar kung fu. "Temos aulas para crianças e até pessoas com deficiência visual. Antes do kung fu, pratiquei outras modalidades, mas me apaixonei porque esta é, de todas, a mais completa", destaca. O kung fu é uma arte milenar criada há 500 anos na China e que se tornou bastante popular nos filmes de ação de Bruce Lee.


Conheça algumas curiosidades do kung fu

Animais

Arte milenar criada na China, o kung fu tem mais de 5 mil anos e é dividido em centenas de estilos, todos inspirados nos movimentos da natureza. O estilo Cho Lay Fut por exemplo, é baseado em cinco animais: Tigre, Pantera, Serpente, Garça e Dragão.

Benefícios

Quem pratica o kung fu garante ser uma arte que vai muito além das técnicas de luta. É unânime a avaliação sobre os benefícios desse esporte, entre eles noções de responsabilidade, liderança e respeito sociabilidade e disciplina melhorar na autoconfiança e no conceito de defesa pessoal.

Lutador de Cordeirópolis está na Seleção desde 99

A melhor amiga costumava achar graça quando Emerson Almeida dizia que seria um dos melhores do mundo no kung fu. Nascido na pequena cidade de Cordeirópolis, com aproximadamente 25 mil habitantes, a idéia de ter um conhecido consagrado internacionalmente soava incoerente. "Mas hoje eu posso dizer com certeza que sou um dos melhores do mundo", gaba-se Emerson, que soma três medalhas de bronze em mundiais na categoria sanshou.

A trajetória do atleta teve início comum: aos 14 anos procurou o esporte para moldar o corpo. Pegou gosto e aos poucos adotou como propósito ganhar a vida divulgando o kung fu. Hoje, além do apoio financeiro que recebe da Prefeitura, tem patrocínio da Cerâmica Cecafi e bolsa atleta do governo federal. "Mas não ganho tanto dinheiro. Mal dá para pagar a faculdade (de Educação Física, em Araras)."

A satisfação mesmo vem com o reconhecimento nas ruas da pequena cidade onde mora. "Nunca teve um atleta olímpico em Cordeirópolis. As pessoas vêm me parabenizar", gaba-se, feliz com a popularidade. Nada que atrapalhe o foco, claro. "Estou na Seleção Brasileira desde 99 e acho que este é meu melhor momento. Espero conseguir pelo menos uma prata em Pequim", diz.

Seleção

O 9º World Wushu Championships foi realizado em Pequim e contou com participação de 1,4 mil atletas de 88 países. A Confederação Brasileira de Kung Fu Wushu enviou ao campeonato 20 atletas. Pela primeira vez, uma equipe completa. "Além das conquistas da Ariana e do Emerson, essa competição é histórica pela participação do Brasil", destaca o técnico do grupo feminino, Henrique Ortega.

Outro resultado de destaque é o bronze de Ana Claudia Fatia, de Bauru, que não estará em Pequim porque sua categoria está fora do programa. Todos os brasileiros da equipe de sanshou ficaram entre os 12 primeiros colocados. Além do sanshou, estiveram na China atletas do taolu (rotinas), entre eles Adriano Lourenço e Roque Bernardes, respectivamente 12º e 10º.